A hóstia sumiu

Elza Ramos
Divulgação

Eu estava com 12 anos. No auge da criatividade e rebeldia. Estudava no Instituto Feminino da Bahia. Escola tradicional para moças, propriedade da Arquidiocese. Herança deixada por sua fundadora e proprietária D. Henriqueta Catarino que morrera solteira. Foi sua condição que a Igreja Católica, sendo proprietária, administrasse as finanças e recebesse os lucros, mas que a direção pedagógica fosse técnica e que a escola continuasse com o mesmo quadro de professores e funcionários e a utilizar os mesmos critérios adotados quando da sua direção. Professores altamente qualificados, selecionados através de prova oral e escrita e somente contratados após vasta investigação de seus antecedentes. Naquela época dizia-se: professor fulano é catedrático do Instituto Feminino.

D. Henriqueta Catarino pertencia à família rica e tradicional da Bahia. Educadora respeitadíssima por suas idéias e práticas, resolvera fundar uma escola que preparasse as moças para a vida social e profissional. Era sua preocupação qualificar as mulheres tecnicamente para o mercado de trabalho. Pensava ela que mulheres devem ter qualificações profissionais, antes de pensarem em casar e ter filhos. Daí o Instituto Feminino ter sido a primeira escola particular a oferecer cursos técnicos para moças: Contabilidade, Secretariado e Administração de Empresas. Os dois primeiros desde o início dos anos 60 e o último inaugurado no meado dos anos 70. E eu orgulhosamente fiz parte da primeira turma.

Num certo dia de segunda-feira Lourdes, censora de andar, passou de sala em sala para avisar que após o recreio teríamos missa em sufrágio da alma de uma funcionária aposentada falecida há sete dias. Todas nós devíamos nos dirigir à capela. Eu me revoltei. Vira e mexe as aulas eram suspensas para celebração de missas por razões que desconhecíamos ou oferecidas a pessoas que sequer conhecíamos. Acreditava que isso era uma imposição de que fôssemos carolas a pulso. E eu não queria sê-lo.

Silenciosamente me dirigi à sala de D. Yolanda Piva Pinto, diretora, e perguntei a ela o porquê de eu ser obrigada a assistir aquela missa. Argumentei que, na condição de católica já havia assistido a missa dominical indicada à boa religiosa. Não queria assistir aquela missa. D. Yolanda retrucou que era obrigado e pronto. Me revoltei.  Acendeu-se aí a fogueira no meio do peito, que indicava a indignação que não pode silenciar.

Inconformada, fui ao pátio do recreio matutando o que faria para me vingar. Não gostava de ser obrigada a fazer algo sem haver uma explicação lógica. Nunca aceitei uma máxima do autoritarismo: é ordem, cumpra-se. Mesmo inconformada sempre aceitei as coisas com as quais não concordasse, desde que me fosse explicado o motivo. Pensei, pensei e pensei. De repente a lampadinha acendeu. Tive uma idéia brilhante para irritar a todos.

Furtivamente subi a escada da sacristia e cheguei até o altar da capela. Abri o sacrário, peguei o cálice grande, porta hóstias e, bem rapidinho, comi todas as hóstias. Procurei e achei a caixinha cheia de hóstias que acreditei seriam as reservas e comi tudo. Uma aflição. Elas colavam no céu da boca e eu as descolava com os dedos enfiados na boca. O coração parecia que ia sair bela boca. Não tinha mais jeito. Agora era pagar pra ver o resultado. O medo se agigantava. Medo das conseqüências mas, em mesma proporção a curiosidade de observar a reação de D. Yolanda quando descobrisse o feito. Isso realmente me dava uma alegria imensa.

Voltei ao pátio e me misturei às outras meninas. E o sino tocou. Era o chamado para formarmos as impecáveis filas para subirmos à capela. E eu no meu lugar determinado. E subimos. Meu coração aos pulos. Cheguei a pensar que todos o ouviam bater, de tão forte que eram as batidas.

E a missa começou, celebrada por Pe. Píton, diretor geral da escola. E eu cada vez mais nervosa e quieta. Cara de santa. Contrita. Com véu, terço na mão e o catecismo, acompanhando a  missa. Nisso chegou a hora da comunhão e Pe. Píton falou: Felizes os convidados para a ceia do Senhor. Eu, mais que depressa respondi: Senhor eu não sou digna de que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e serei salva. Claro que estava de joelhos e com os olhos fechados.

Pensei que meu coração fosse parar. Me dirigi à fila da comunhão, enquanto observava cada gesto do padre. Esse dirigiu-se ao sacrário e pegou naturalmente o cálice porta-hóstia e, ao destampá-lo, a surpresa. Arregalou os olhos e , discretamente, voltou-se e pegou a caixinha das reservas. Nova surpresa. Coçou suavemente a cabeça e dirigiu-se à D. Yolanda que ocupava lugar de destaque. Cochichou ao seu ouvido e ela avermelhou tanto que imaginei que explodiria. Eu, qual santa, me mantinha na fila da comunhão, olhos entreabertos filmando tudo. D. Yolanda, após alguns segundo, dirigiu-se ao microfone e disse com voz trêmula: infelizmente, por motivo de força maior, não teremos a comunhão. Por favor, voltem aos seus lugares.

Ufa, tinha conseguido, com certeza, acordar a leoa que existia dentro de D. Yolanda. A missa se encerrou e todas formamos filas para voltarmos às salas de aula. Estava feito. Agora era só esperar os visitantes saírem que começaria a gritaria. E assim foi.

Estava eu em sala, assistindo aula de matemática com D. Hildete e já podia ouvir os gritos histéricos vindos das outras salas. D.Yolanda estava passando com seus gritos, de sala em sala e chegaria na minha. Os sons dos gritos se aproximavam ameaçadoramente. Chegou. Ela entrou, pediu licença à professora e já foi dizendo: eu quero saber quem foi a marginal que comeu as hóstias da missa!!!! E percorria a sala com o olhar enfurecido. Eu, claro, estava morrendo de medo, mas mantinha a cara de santa.

Ela berrava e enchia o ambiente de ameaças. Se não descobrisse quem fora  a autora da façanha, toda a escola pagaria. Silêncio. Repetia as ameaças e nada. Silêncio total. Aí veio o tiro de misericórdia. Ela gritou: Yole, Clarissa e Elza, de pé. Havíamos sido escolhidas pelos antecedentes. Ficamos de pé e as outras duas já começavam a chorar. Eu séria. E o pior aconteceu. Ela começou a perguntar, uma a uma. Yole, foi você? A resposta veio rápida, aos soluços: Não D. Yolanda. Clarissa, foi você? Mesma resposta. Não, D.Yolanda. Estava feito o estrago. Eu não mentia. Elza, foi você? E a resposta fatal: sim, fui eu D. Yolanda.

Seguiram-se tantos berros, impropérios, e ela veio em minha direção e me pegou pela orelha. A pobre diretora estava fora de controle. D. Hildete riu. Muitas colegas riram escondido. Eu era uma heroína nacional. Tinha tirado a diretora do seu centro. Ela estava louca, surtada. E eu, ferrada.

Desci as escadas debaixo de berros e as funcionárias, Lourdes e Estela, riam disfarçadamente. Quando cheguei à Diretoria, o veredicto: suspensão. Aliás suspensão seria prêmio por dispensar-me de assistir aulas. Eu deveria ir à escola durante uma semana, em turno oposto, escrever num caderno brochura inteiro: devo respeitar as normas da escola. Além disso fiquei suspensa dos treinos de vôlei e fora da seleção de tênis de mesa por um semestre.

O melhor de rememorar esse fato foi reconhecer que ali nascia Elza – a indignada. E claro que contei a D. Yolanda, depois do episódio quando ela já estava calma, o porquê da minha façanha. Não aceitava a ditadura. O autoritarismo. Quero ser ouvida e discutir as imposições racionalmente.

O pior é que hoje, aos 60 anos, cresci e evolui em muitas coisas, menos nessa questão. Não aceito sentenças. É porque é e pronto. Acredito que jamais aceitarei. E essa escolha tem me rendido muitos incômodos. Mas fazer o quê?

A autora Elza Ramos é publicitária, pedagoga e iyalorixá